VíDEOGAME: A MAIS COMPLETA DAS ARTES?![]() Postado por Daniel Dantas em Jan 8, 2010 17:53 () |
Nos últimos anos a indústria dos jogos eletrônicos tem recebido bastante atenção da mídia, e conseqüentemente do público em geral, graças às evoluções técnicas, que permitem a recriação de personagens e cenários cada vez mais detalhados, e da evolução artística, que trouxe roteiros mais complexos, universos incríveis e personagens marcantes. Trata-se de uma indústria que movimenta dezenas de bilhões de dólares anuais, e que não pára de receber novos adeptos.
Séries como Halo ou Mass Effect transcendem a barreira eletrônica, e têm suas histórias contadas também através de outras mídias, como livros, filmes em curta-metragem, quadrinhos, desenhos animados, etc. Seus misteriosos universos e personagens únicos cativam o público, que buscam por cada vez mais informações sobre os mesmos. O aspecto de super-produção cinematográfica está presente em cada instante, com o diferencial de que ao invés de mero espectador, o jogador é o protagonista da história. Há também jogos como Ico e Shadow of the Colossus, que trazem uma perspectiva mais intimista e bela, ou séries como Katamari e Super Mario, que trazem coisas bizarras e sem sentido, com o mais puro intuito de um jogo eletrônico: a diversão.
![]() Por passarem a mexer cada vez mais com nossos sentimentos, surgiu entre os jogadores a pergunta: videogame é arte? Muito se discutiu sobre o assunto, e parece cada vez mais difícil negar que os jogos eletrônicos são uma forma moderna de arte. Se a arte é uma atividade ligada geralmente à manifestações estéticas, trabalhando com a percepção e emoção, através de ideais que estimulam instâncias de consciência, e se os jogos eletrônicos nos propiciam isso, então a única conclusão que podemos chegar é de que videogame é SIM uma forma de arte.
O conceito de game-arte ganhou força com os RPGs japoneses, como as séries Final Fantasy ou Chrono, por exemplo, que primavam por belas histórias, personagens cativantes e cenas memoráveis. Os anos passaram e a idéia deu tão certo que perdura até hoje. Recentemente vimos o lançamento de Final Fantasy XIII na terra do Sol nascente, e nos deliciamos com a beleza da Lightning, a charmosa Fang, entre outros personagens e cenários de visual marcante. Outro aspecto que vale a pena ser levantado é sobre as trilhas sonoras, que acompanharam o avanço visual dos jogos, e o que se vê (ou melhor, se ouve) são mega-produções que em muitos casos, superam as de praticamente qualquer grande filme.
![]() Muitos consideram (ou “medem”) a “arte” de um jogo pelo seu apelo visual. É verdade que existem discrepâncias entre jogos orientais e ocidentais, especialmente no que tange ao design dos personagens, objetos, veículos, cenários, etc. Os orientais valorizam muito a beleza, a estética, enquanto os ocidentais valorizam a praticidade, o realismo. Por exemplo, por mais que no espaço faça mais sentido utilizar, por questões de espaço interno e praticidade na alocação de equipamentos e pessoal, naves em formato de caixote, é óbvio que uma nave totalmente aerodinâmica, ou com aparência de um enorme monstro será visualmente mais apelativa, da mesma forma que um carro alegórico de escola de samba com canhões é visualmente mais apelativo do que um tanque de guerra. Mas isso faz dos jogos orientais mais “artísticos” que os ocidentais? Para entendermos isso, é necessário discutir os conceitos e a definição de arte.
É complicado definir algo tão subjetivo, mas de acordo com dicionários e enciclopédias, a arte é a expressão do que é belo, que vai além do ordinário, uma forma de arranjo, processo ou produto que deliberadamente apela para o uso de sentidos e emoções. Sendo assim, os jogos eletrônicos têm atingido cada vez mais o status de arte.
Recentemente eu tive o imenso prazer (mesmo que um bocado atrasado) de terminar Mass Effect, um jogo que eu já citei neste texto. O curioso é que eu não acreditava muito que o game iria me agradar, até porque RPGs ocidentais nunca foram um colírio para meus olhos, especialmente depois de ter jogado o fraco Jade Empire, da Bioware, mesma produtora de Mass Effect. Pra minha surpresa, eu não apenas gostei muito do jogo, como acho que deve se tornar minha série favorita com o lançamento de sua seqüência agora no mês de janeiro. Pra quem não sentia atração por RPGs ocidentais, isso foi de certa forma surpreendente.
Os RPGs ocidentais levam o significado da sigla “RPG” (Role Playing Game – Jogo de Interpretação) mais ao pé da letra do que os orientais. Eles primam pela liberdade de escolhas do usuário, pela não linearidade, eles deixam o jogador ser o personagem principal. Isso é bom por um lado, mas por outro, geralmente trazem pouco carisma e emoção aos adeptos dessa filosofia. Já os RPGs orientais mais parecem livros jogáveis, normalmente com poucas opções a não ser seguir em frente numa história pronta, rígida. Os personagens estão todos predestinados a sempre fazerem a mesma coisa, a terminarem a aventura sempre do mesmo jeito, de forma linear. Parece algo ruim, mas por outro lado, é o estilo responsável pela introdução de personagens carismáticos e cativantes, além de belas histórias bem contadas.
Mass Effect foi além, e surpreendeu tanta gente porque ele une o que há de melhor nos dois gêneros. Toda a liberdade de escolhas está lá, e elas são muitas vezes cruéis com o jogador. Por diversas vezes me peguei matutando sobre se a decisão que eu tomei em determinados momento do jogo foi realmente correta, com medo do que poderia vir como conseqüência dela, e confesso que me dei mal em algumas dessas escolhas. O design dos personagens, das armas, dos veículos e dos cenários é também incrível, um pouco menos “carnavalesco” do que nos games orientais, mas muito acima do padrão dos jogos ocidentais, porém. Os personagens marcantes, que realmente parecem vivos e humanos estão presentes, e de fato há vários momentos de fortes emoções durante o jogo, sem precisar apelar para vídeos pré-renderizados. Essa união de qualidades fez de Mass Effect talvez o primeiro game a unir o que há de melhor nos RPGs orientais e ocidentais.
Mas talvez a característica mais interessante desse jogo seja o fato de ele puxar o jogador pra dentro da história, nos envolvendo num universo riquíssimo em detalhes, onde tudo parece extremamente verossímil, mesmo se tratando de ficção científica. Cada planeta, cada personagem, cada raça tem sua história, nada passa em branco, tudo é contado. Quanto mais se conhece sobre Mass Effect, mais se quer conhecer.
![]() Eu não estou fazendo mil elogios ao game da Bioware por acaso. Na verdade foi por causa dele que eu escrevo este artigo. Mass Effect traz cenas cinematográficas como as dos melhores filmes, traz um material em forma de texto que mais parece uma enorme enciclopédia, uma história que faz frente aos bons livros e filmes de ficção científica, e visuais que mesmo não sendo a ultima palavra em termos tecnológicos, faz muitíssimo bem a parte artística, nas questões de design. Essa série de qualidades me fez perceber que nenhum livro daria tais opções de escolha, nenhum filme teria tantos detalhes de história para cada personagem, cada planeta, cada raça e, além disso, o jogo tem uma estética praticamente perfeita, independente da tecnologia empregada.
Nenhuma outra arte nos propiciou tantos tipos de arte reunidas. A graciosidade do que é belo, os atos marcantes de cada personagem, a emoção em cada trecho da história e, além disso, cabe a você decidir como ela deve decorrer.
Que os jogos eletrônicos são uma arte, isso já me parece indiscutível. Mas essa quantidade de características que vão além da sublime união das qualidades de várias artes me fez questionar se os jogos eletrônicos não são uma forma de arte superior à todas as outras artes. É a mistura da música, dos livros, da dramaturgia, da fotografia e, em alguns casos, a mais simples e pura arte de estar vivo, de fazer parte de algo, de tomar suas próprias e por vezes dramáticas decisões. Não é o simples ato de assistir, de ouvir, de interpretar. É assistir, ouvir, interpretar e interagir!
Claro que eu não espero que os jogos eletrônicos sejam vistos por todos como são vistos os quadros de Picasso, Monet, ou as musicas de Mozart e Bach por exemplo. Mas aguardo o dia em que os jogos eletrônicos sejam tratados com o respeito que merecem, que percam o rótulo de “coisa de criança e nerd”, e passe a ser tratado como uma indústria séria, que movimenta bilhões de dólares e, acima de tudo, como uma forma de arte contemporânea que alimenta o imaginário de milhões ao redor do planeta.
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Jan 18, 2010 14:05:16 ()






